Brasil, 20 de setembro de 2017  
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Nas montanhas ao longo do Velho Chico  

Vindos das bandas de Januária, por uma péssima estrada de terra, chegamos a Fabião, um lugarejo ao norte de Minas Gerais bastante pobre onde não havia mais do que umas 30 casas e ranchos. Na época, outubro de 1980, com sorte nós encontramos pouso na única pensão do povoado, cuja proprietária se dizia dona de uma “rica” mina de ouro...

Esteves no habitat da Facheiroa pilosa F. Ritter

Alguns quilômetros, à direita de Fabião, o Rio São Francisco corre rumo a Bahia, de forma que o povoado, espremido entre a montanha (um contínuo e alto maciço calcário, habitat de vários cactos e bromélias) e o Velho Chico, tornou-se passagem obrigatória para quem se dirige a Bahia.

Na serra, Euphorbia phosphorea Mart, Facheiroa pilosa F. Ritter e Encholirium sp.

A noite chegou rápido, pois a pensão localizava-se à sombra do maciço rochoso e, ao sentarmos na sala de jantar para uma cervejinha, já ouvimos o barulho do motor à Diesel que supria fabião de energia elétrica. Acredito que o motor não era muito potente, pois as lâmpadas da pensão quase não iluminavam, mais pareciam tomates maduros dependurados. Tudo bem, depois de umas e outras fomos informados que logo a janta seria servida. Naquela viagem estava acompanhado do baiano Dona, vaqueiro da minha fazenda. “Seu Ed, estou fadigado da viagem e sem fome, acho que só vou jantá depois de banhá. Será que se a gente pedir, servem a gororoba mais tarde?”. Enquanto o baiano argumentava, uma morena adentrou ao recinto, cantarolando e bamboleando a bunda para os lados, chamando a atenção dos marmanjos. Era a cozinheira, que já vinha servindo a janta: pratos com arroz, feijão, batata-doce, carne de panela, frango cozido, angu, molho de quiabo, ovos fritos e farinha de puba, sem ao menos nos perguntar o que gostaríamos de comer. “Opa, opa, o que é isso? Oxente, eu ainda nem com fome. Posso jantá depois, minha fulô?”, perguntou o vaqueiro. “Nada de fulô, meu nome é Marina, e com muito respeito, viu?”, retrucou a morena. Ressabiado, acendendo um cigarro, o Dona ficou calado, mas, disfarçadamente olhava para a bunda da moça.

Mesmo sabendo que era costume as pensões servirem a bóia ao escurecer, perguntei a cozinheira se seria possível a gente jantar um pouco mais tarde, lá pelas 20 horas. Olhando-me com desdém, com certa ironia a morena explicou: “Uai, sô, eu trabalho aqui só até as sete. Agora, se a proprietária puder requentar a comida pra vocês, mais tarde, ai é outro assunto”. Percebendo que um problema chamaria outro, sai de fininho, “está bem, então vamos jantar agora. Vocês têm salada de alface com tomate? E, para sobremesa, a senhora poderia nos trazer doce de caju em calda?”, perguntei em tom de brincadeira. Ela, já entrado no clima, respondeu sorridente informando que a pensão servia refeição, tipo comercial, e que todas as misturas já estavam à mesa e, completou: “Bom apetite, se desejarem bebidas poderei servir”. Com um olhar panorâmico de cima para baixo, até a anca da morena, o baiano perguntou bem mansinho: “Seria possível a senhora trazer uma colher grande... É pra eu comer o angu com quiabo. E também, se não for pedir muito, manda uma loirinha bem gelada”. Fazendo sinal de aprovação com a cabeça, a morena seguiu servindo outros hóspedes. O vaqueiro, ainda acompanhando a cozinheira com os olhos, veio com uma pergunta e uma sentença. “Será que essa belezura é baiana? Se for, hoje tentarei descobrir o que é que a baiana tem!”. Sem outros percalços, jantamos e saímos em busca de ar fresco.

Bem em frente da pensão, uma grande tarumãzeira já deixava cair seus perfumados frutos e bandos de morcegos faziam a festa. Os chiados estridentes dos mamíferos alados chamaram a atenção e logo nós estávamos sob a árvore, observando o banquete. Curiosos com o frenético vai e vem dos morcegos comendo frutas, nos demos conta de que, por ali, ninguém mais estava se importando com a presença dos bichos. Até o baiano, temeroso, preferiu ficar mais afastado da árvore imaginando que aqueles pudessem ser vampiros, (morcegos hematófagos) que sugavam sangue dos mamíferos. Dirigindo-me a um senhor que fumava um fedorento cigarro de palha, próximo da janela, perguntei se na região existiam os morcegos vampiros. Respondendo-me, informou que aqueles morcegos vinham, todas as noites, só para comer frutas nos quintais.“Uai, eles chegam aos montões. Vivem nas grutas da montanha. Não gostamos deles, entretanto são bichinhos que Deus criou e não fazem mal pra ninguém”, completou.

Morcego, espécie frugívoro ou insetívoro, mas não hematófago

Insisti na pergunta: “E os vampiros? Aqui não têm aqueles morcegos que chupam sangue?”. “Uai seu moço, têm arguns. Essa qualidade de murcêgos vem de noite chupá o sangue dos animars. Os bichos chegam de mansinho, trançam e maçarocam as crinas dos animars promode eles num senti dor, adispois chupam o sangue dos coitados até o sol raiar. Todo animar que o sinhô vê por ai com o rabo embaraçado pode sabê que ele foi chupado pelos vampiros. Se o moço quisé, bem cedinho mostro um buraco na serra bem cheia desses feiosos. Fica bem pertinho”, completou.  Aceitamos o convite e manhã seguinte, depois de tomar café com leite, acompanhado de broas de milho, seguimos com Seu Zezé de carro por uma estradinha, bem suja, que ia direta pra serra. Ao longe o maciço calcário parecia intransponível, entretanto ao nos aproximar vimos que era possível subir as encostas, seguindo por algumas trilhas e fendas. Nos paredões, podíamos ver cactos e bromélias dependurados das rochas e o estridente canto das maritacas ecoava pela serra. “Que cacto é aquele ali? E aquele outro?”, apontavam para o alto, o Dona e o Seu Zezé.

Numa olhada panorâmica pelas paredes, vi algumas espécies e expliquei: “Nessas serras crescem muitos xiquexiques, macambiras e, também, lindas coroas-de-frade”. Seguindo o guia por uma matinha fechada, chegamos a uma estreita furna localizada na base da serra. O teto era alto, cerca de doze metros, mas a gruta só era iluminada por uns 30 metros, depois ficava tudo escuro. Centenas de morcegos, dependurados ao teto, espremiam-se uns aos outros, chiando e freneticamente voando daqui para ali, assustados com a nossa presença. Novamente o baiano permaneceu bem longe da gruta, observando a nossa curiosidade. Tirei algumas fotos, ciente de que pela falta de iluminação, não ficariam boas.

Conversa vai, conversa vem, o Seu Zezé que era garimpeiro e conhecia a serra como a palma da mão, se dispôs a nos guiar serra acima, onde exploravam uma mina de pedras semipreciosas.

Aproveitando a conversa sobre mina, perguntei onde ficava a mina da dona da pensão. "Óia, sô, antes de morrer matado, o marido da  Rosa falô pra ela que tinha achado uma mina de ouro em cima dessas serraiadas. Só que, nem ela nem ninguém, sabe onde é que fica o buraco. O povo daqui acha que a mina não existe, mas a coitada, quase todos os dias sai procurando pela mina nesse mundão de serra", explicou o guia. De volta à pensão, ao acertar as despesas, comentamos com a Senhora Rosa que, a sua pensão era uma verdadeira mina de dinheiro, pois era a única do local. Com um olhar tristonho, ela agradeceu e desejou-nos uma boa viagem.

Seguindo orientação do guia, tocamos por cerca de 20 quilômetros ao norte e chegamos a uma porteira, fechada por cadeado. Rápido o guia desceu do carro e foi direto até umas pedras onde chaves estavam escondidas. “Só conhecem esse segredo quem trabalha ou mora lá na mina. Lá no alto é uma chapada e têm muitas fazendas”, explicou.
Porteira aberta, nós fomos subindo a estrada com a Rural engatada de primeira marcha. Onde havia fendas na estrada, construíram pequenas pontes e, nos locais mais íngremes, cobriram as pedras com cimento rústico para evitar deslizamentos. E assim, íamos devagar serra acima, com a rural engatada na marcha forte. Aqui e ali, em pequenas clareiras de pedras planas, Melocactus diersianus cresciam à sombra de grandes colônias de Encholirium. Ao longe, nas cristas de pedras, a Facheiroa pilosa destacava-se com seu longo cefálio de cor creme.
Com o esforço, o motor da Rural começou a esquentar, quase fervendo. O baiano que seguia o carro a pé, deu o alarme, mostrando a fumaça saindo do motor: “Oxente, pare o carro! O motor ta fumegando. Virge Maria...”. Ao abrirmos o capô uma fumaça negra subiu. O primeiro pensamento foi que a viagem havia terminado. “Ô Homi, o carro ta arretado, subindo de primeira, e desse jeito, não tem motor que agüente. Oxente, vamo colocá água pra esfriar o radiador”, ensinava o Dona. “Tudo bem sabidão, mas aonde vamos encontrar água para encher o radiador?”, perguntei. Rápido o Seu Zezé veio com a solução: “Ali ó (apontando o dedo para o lado), tem uma grutinha, onde sempre tem água limpa. Quando a gente ta caçando Mocó por aqui, é costume ir naquela grutinha pra beber. Vamo lá buscar água, baiano?”. Usando um galão de plástico, de litro em litro, pegaram água até encher o radiador. Como gato escaldado que teme água fria, nós também aprendemos e já íamos devagar, serra acima, quando de repente atravessa a estrada um bando de caititus, que esquivos, passam martelando os maxilares num estridente e repetitivo som "prec, prac, prec, prac...

Esteves fotografando a natureza nas encostas da serra

Melocactus sp e Encholirium sp

Pilosocereus densiareolatus F. Ritter (superfloccosus)

Caititus (Tayassu tajacu)

” E, num piscar de olhos, os porcos velozes somem por entre a espinhosa vegetação. De dentro do carro, num instante de euforia pela rápida visão, o Seu Zezé, gritava e berrava como se estivesse participando de uma caçada. “Irra, pega, pega, cerca os bichos...” Na agitação, até o Dona queria sair do carro para pegar um caititu, à unha. ”Pare o carro, vou pegar um cateto pra gente assar lá no alto da serra”. Ainda sob o efeito "caititu", chegamos ao topo onde, numa chapada, estava localizado o barracão da mina. Na chegada fomos recebidos por alegres trabalhadores, que ao reconhecerem o Seu Zezé juntaram-se numa alegre roda, especulando a causa da nossa visita. Depois das perguntas e respostas rotineiras, seguimos serra abaixo para fotografar a paisagem e as plantas que cresciam margeando os precipícios. As rochas calcárias, extremamente afiadas, nos obrigavam a andar vagarosamente e, inclusive, nas escaladas e descidas fomos auxiliados por três fortes garimpeiros. Só assim conseguimos chegar até as maravilhosas plantas da serra. Depois de mais ou menos duas horas, sob o sol escaldante do topo, resolvemos retornar a Fabião, entretanto só o fizemos depois de ter concordado em almoçar com os garimpeiros. Sem cerimônia, nos servimos direto das panelas de ferro e de barro: arroz com carne seca de mocó, feijão com farinha, jerimum e macaxeira de polpa amarela. Acompanhava uma pura cachacinha de engenho. “Essa é da boa, vem lá de Januária”, explicou um dos peões. Agradecemos e retribuímos, com algum dinheiro, os braçais que nos auxiliaram.

Na descida, cerca de 500 metros antes da base da serra, vimos um grande Pilosocereus densiareolatus (superfloccosus) que crescia a cerca de uns 40 metros distantes da estrada e, atraídos pela silhueta do cacto, resolvemos fazer algumas fotos. Encarreguei o Dona de levar a maleta com os acessórios até próximo do cacto, enquanto segui, um pouco mais pela esquerda, me esgueirando das afiadas rochas calcárias. Já sob o grande Pilosocereus, galhado em forma de candelabro, eu ia fotografando os proeminentes tufos de cerdas alvas que pendiam de seus galhos. Nesse meio tempo, enquanto eu documentava os detalhes do cacto, mais displicente e curioso, nosso guia passeava pela redondeza, sob um sol acima de 40º. Pulando pelas pedreiras cobertas de cactáceas e bromeliáceas, Seu Zezé se pôs a observar tudo o que se movia, desde pequenos calangos, araras que comiam frutas dos cactos, até os insetos que visitavam as flores dos Encholirium gigantes.

No topo da serra, Pilosocereus e Encholirium

Enquanto eu fotografava o grande cacto, vi que o Seu Zezé pulava e corria desesperado em nossa direção, abanando-se com o boné, gritando: “Abelhas, abelhas, corram para o carro! Abelhas...”. Ao percebermos o que estava acontecendo, também nós largamos tudo e corremos para nos proteger no interior do carro. O guia, que se afastara uns 100 metros do carro vinha correndo desembestado, perseguido por um enxame de africanas.  Foi um sufoco. Mesmo recebendo dezenas de ferroadas, todos conseguimos chegar e entrar no carro, deixando ao pé do candelabro a maior parte do nosso equipamento. Ficamos acuados dentro da Rural, enquanto esfregávamos álcool e pomada antialérgica nos locais das picadas. “Eu tava pulando de pedra em pedra e o barulho irritou as abelhas. Foi muita sorte a gente entrá rápido aqui no carro fechado, caso contrário já estaríamos mortos. As africanas daqui atacam tudo o que se move”, explicou o Seu Zezé. Ele foi o que mais levou ferroadas, ficando com o rosto e o pescoço bastante inchados, entretanto vivo.
Descemos a serra e permanecemos ao lado da porteira até anoitecer. Protegidos pela escuridão nós pudemos retornar às pedreiras e recuperar nosso equipamento fotográfico.
Com nossos corpos doloridos pelas picadas das abelhas, novamente pernoitamos na pensão.
Próximo destino: Bahia.

Eddie Esteves Pereira


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