Brasil, 20 de setembro de 2017  
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Os Discocactus e os Urubus  

Estávamos, novamente, na área do Discocactus lindanus. Naquela oportunidade, maio de 1977, em companhia dos amigos Renzo e Tonico, buscávamos espécies importantes da flora do estado de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros.

Pernoitamos em Alto Paraíso e, logo após o café, saímos em busca de alguém que conhecesse as estradas e trilhas da chapada. Naquela época, o Parque Nacional de Veadeiros, não estava ainda organizado, com guias e tudo mais, da forma como existe atualmente. Ainda na pensão, fomos apresentados ao Francisco, um guia residente na cidade. - De aparência rústica, com jeito de hippie e pouco falante, ele era goiano, natural de Cavalcante, e aparentava ter uns 50 anos.
A dona da pensão, que o apresentou, nos garantiu que ele era "pessoa destemida, forte e muito corajosa", era estudado e conhecia muito bem, cada palmo, da Chapada dos Veadeiros.
- No inicio da nossa conversa o Francisco nos informou: "Amigos, no passado eu garimpava nessas serras, mas o governo proibiu explorar cristais por aqui. Agora eu vivo de bico como guia. Essa é a região de maior diversidade existente no País e faz parte do semi-árido brasileiro. Sua vegetação é predominantemente de cerrado, constituída por cerrado propriamente dito, cerradão, campos, campos rupestres, mata ciliar e veredas. A natureza aqui no nordeste goiano, é de encher os olhos".

Com todo aquele conhecimento e pelas boas referências, nós o contratamos por um dia.

Usando roupas surradas e um chapéu desbotado, o guia nos deixava a impressão de que não tomava banhos há dias, ou o desodorante que usava, há tempos havia vencido, pois o odor do seu suor recendia a distância. Entretanto, naquelas alturas, depois de saber que o guia era “forte e destemido”, ninguém se habilitava a fazer nenhum comentário sobre o seu “perfume”.
O Renzo, impaciente por conhecer as novidades das chapadas, já foi logo ligando o carro, e nos chamando: "Vamos logo, gente! Agora eu vou dirigindo, pois estou louco pra conhecer os "viados" daqui”.

 

Chapada dos Veadeiros em 1977

E assim, na altitude fria do paraíso, saímos em busca das novidades. Por recomendação do Francisco, pegamos a estrada que seguia em direção a Nova Roma. Muito esburacada, a estrada aparentava não ser muito usada, pois grandes valetas e grotas nos obrigavam a trafegar com cuidado. Seguimos parando, quase que de valeta em valeta, procurando os melhores trechos para passar com nosso carro.
As paisagens abertas dos vales podiam ser observadas a grande distância, pois a vegetação era baixa, com poucas árvores. O vento soprava forte e o tempo frio nos obrigava a usar casacos e, mesmo assim, sempre que passávamos sobre alguma ponte, o Renzo parava o carro e perguntava em tom de brincadeira: “Gente! Veja que água limpinha! - Alguém aqui, por acaso, deseja tomar um bom banho?”. - É claro que nosso guia nem percebia que ele estava sendo o alvo das brincadeiras.
Numa das paradas, ainda perto da cidade, encontramos uma grande touceira de Bromelia (mais tarde identificada por Bromelia irwinii), crescendo sobre um afloramento de arenito. Constatamos que a espécie era bastante comum naquela Chapada e, com sorte, fotografamos um magnífico exemplar com flores e frutos.

Vales nas fraldas da Chapada dos Veadeiros

Bromelia irwinii L. B. Smith

Passando pelas proximidade de um grande vale, circundado por uma extensa crista rochosa, o Francisco nos informou que seria bom parar naquele local, pois, quem sabe, poderíamos ver muitos bichos e plantas bonitas. Explicou que aquele era o local preferido dos caçadores de perdizes e de veados.

Já de longe podíamos ver, nas pedreiras, colônias de Pilosocereus entre Velosiáceas e Palmáceas e, como sempre, qualquer presença dos cactos nos animava, o Renzo rápido, afundou o pé nos freios, dizendo: “Vamos nessa pessoal, estou cansado de dirigir, agora vou tomar umas loirinhas”.

Depois de preparar nosso equipamento fotográfico, saímos em direção aos afloramentos rochosos avistados no horizonte, deixando o Tonico no carro, com a incumbência de buzinar, mais ou menos, a cada hora. "Tonico fique aqui, e buzine a cada hora, pois mesmo com o conhecimento do Francisco, poderemos nos perder nessas extensas chapadas". Expliquei a idéia ao Tonico.
O guia, com cara de não ter gostado da minha explicação, seguiu calado pedreiras acima, carregando a maleta com os acessórios das câmeras. Subíamos e descíamos as pedras, cobertas de musgos e repletas de orquídeas, veloziáceas, bromélias, cactos, etc., etc. Um paraíso onde tudo era novidade.

De repente, bem debaixo de nossos pés, uma perdiz alçou seu vôo estridente. - Foi um susto geral que desencadeou um ataque de riso em nosso guia. "Rá-rá-rá, Ri,ri,ri, Ró,ró,ró, etc". Ainda assustado e injuriado com as gargalhadas do guia, o Renzo contra-atacou: “Olha o cara aí ó! Tá rindo tanto que vai molhar as pontas das orelhas”. Aproximando-se, o Renzo falou-me meio cochixando: "Ô cara! Quase caí de costas nessas pedras e esse hippie fedorento tá rindo às minhas custas. Uma hora dessa vou dar um pau nesse bicho..." - Desabafou o Renzo, enquanto que o Francisco ria um pouco mais.
A paisagem era tão fascinante e diversificada que num certo momento, o Renzo, o guia e eu nos separamos: cada um seguiu para uma direção, por pedreiras diferentes. Eu andava devagar, distraído, observando impressionantes colônias de pequenas Dyckia branco-prateada que cresciam nos tabuleiros de cascalho alvo.

Mesmo com o tempo frio, o suor molhava minha camisa. De repente, uma buzinada me alertou que já estava andando por uma hora.

Retornando ao carro, já encontrei o Renzo e o Tonico tomando umas cervejas e, logo perguntei: “Uai? Onde está o Francisco, ele ainda não voltou?”.

Perscrutando o horizonte, o Renzo nos explicou que o Francisco havia seguido pela crista das pedras, na direção norte, procurando pelos grandes Teiús que viviam por lá. Com aquela razoável explicação, ficamos ao lado do carro, aguardando pela volta do nosso guia.

Dyckia lindevaldae Werner Rauh

O tempo foi passando e nada do Francisco. “O que será que aconteceu com ele?”. Perguntávamos uns ao outros. Depois de algum tempo, o Renzo resolveu retornar ao local onde viu o companheiro pela última vez, e verificar a causa do atraso. Por via das dúvidas, pedi ao Tonico que permanecesse novamente ali, e eu também segui em busca do Francisco. Demos uma grande volta, chamando o amigo pelo nome. Chamando não, gritando, esgoelando: “Franciscô”, “Franciscôoo!”. Os ecos das nossas chamadas, como uma onda, ecoavam vale afora. Depois de quase meia hora procurando, voltamos ao carro e chegamos, justamente no momento que também o Francisco já retornava. Molhado de suor e cansado (e também fedendo) ele foi logo se explicando: “Eu estava seguindo uns Teiús lá na pedreira das cabeças de frade, quando, de repente, fui atacado por dois grandes pássaros negros. Eu corri para cima e para baixo nas pedreiras, mas os bichos me atacavam, bicando e dando rasantes sobre minha cabeça.

Quanto mais eu gritava, com mais violência eles me atacavam”. Mostrando ferimentos de bicadas na cabeça, o Francisco contou que, para se livrar dos pássaros, correu morro abaixo até uma vereda e se escondeu no mato; bebeu água e se refez do susto. Depois de algum descanço, margeando a pedreira, tentou voltar ao local para recuperar a maleta, com os equipamentos, que foi deixada no meio das cabeças de frade.
Explicava: “Eram dois grandes urubus que, mais uma vez, me atacaram...

Casal de urubus - Coragyps atratus foetens (Lich.)), guardiões dos Discocactus

E toda vez que eu me aproximava da maleta eles me atacavam com tanta velocidade que suas asas até zumbiam no ar. Zum! Zoummoom! Vapt! (O guia fazendo a mixagem do som). Puta que pariu, tive que sair correndo e deixei as máquinas lá; agora nós temos que voltar para recuperar o equipamento”. Explicou-se, mais uma vez, o nosso guia. Entre comentários e conjecturas, logo que o Francisco se refrescou e comeu alguma coisa, fomos todos desvendar as causas dos ataques dos urubus.

Próximo do local dos ataques, chagamos a um grande afloramento de pedras achatadas, com aproximadamente 300 por 120 metros de extensão, que abrigava uma grande colônia de Discocactus (E-9). Bem ao lado da pedreira, pousados sobre galhos de altas árvores secas, uma família de urubus montava guarda sobre seus domínios. Em grupo nos aproximamos conversando bem alto para afugentar e desencorajar  um possível ataques dos carniceiros.

Colônia de Discocactus lindanus Diers & Esteves

No início ficamos só observando, entretanto depois de alguns minutos iniciamos uma varredura no local para descobrir a causa dos ataques ao guia. O Francisco, iniciou a busca pelas fraldas da pedreira e nós fazíamos a busca pelo centro. Fazendo suposições sobre a causa do ataque dos urubus ao guia, o Tonico disse: "- Quem sabe esses bichos atacaram o hippie só porque ele está fedendo mais do que eles? - O que vocês acham?". "Nada disso, acho que eles imaginaram que o Francisco fosse outro urubu". Retrucou o Renzo, rindo da sua explicação.
No alto das árvores secas, os pássaros inquietos, balançavam os corpos e voavam de galho em galho tentando nos intimidar. Vez ou outra, os urubus voavam em círculos sobre nossas cabeças e novamente pousavam nos galhos, sempre emitindo sons roucos. Enquanto isso, o Tonico gritava enxotando os pássaros que voavam por perto: “Xô, xô, bichos carniceiros, xô, eu não sou fedorento não, viu?". Com toda aquela algazarra de vozes e risos, certamente as aves imaginaram que éramos, realmente, ferozes predadores.

Ninho dos urubus

Renzo, Tonico, e umas cervejinhas 

Logo em seguida, o próprio Renzo encontrou o motivo da guerra: “Pessoal, aqui ó, nessas pedras, tem um ninho de urubu com dois ovos. Os negrões, ai em cima só estão protegendo os seus ovos". Em segundos, todos nós estávamos em volta do ninho, enquanto que os papais urubus voavam em círculo sobre nossas cabeças, na esperança de proteger o ninho dos predadores goianos. Enquanto eu e o guia mantínhamos os urubus distraídos, o Tonico e o Renzo recuperavam o equipamento que ficara ao lado de uma colônia de Discocactus E-9. Deixando as aves em paz, nós seguimos fotografando os cactos.

Esteves no habitat dos Discocactus

Já passava das três horas da tarde, quando voltamos ao carro para preparar nosso almoço, ou melhor, nosso lanche. Enquanto a gente comia, o Francisco, se referindo ao ninho dos urubus, disse: "Esses ai podem ter mais sorte do que outros bichos, pois aqui na chapada os caçadores matam até os filhotes". Em seguida passou a narrar acontecimentos tristes:
“A natureza aqui em Alto Paraíso está com problemas. Nos fins de semana, caçadores vêm de Brasília e das cidades por perto, para caçar nas chapadas.

Eles chegam de jipes e correm atrás das Emas e dos Veados Campeiros e matam todos que vêem”. Continuou: "Eles trazem cachorros perdigueiros, treinados, e matam centenas de perdizes; - dá muita dó ver tantos bichinhos mortos dentro das caixas de gelo. O pior é que os grileiros e os fazendeiros estão cercando as chapadas daqui, com arame e colocando o gado para pastar; agora é que os bichos daqui vão desaparecer de vez”. Ouvíamos calados as informações do Francisco, percebendo que os tempos já estavam mudando. O Tonico, alertou: "Gente, nada escapa da ganância dos homens; nem a mãe natureza que tudo nos dá".

Ozotocerus bezoarticus (Veado Campeiro)

Reforçando o alerta do Tonico, nosso guia foi mais fundo. "Esse negócio de destruição do paraíso já vem de longe. Quando Deus fez os homens, colocou o Adão e a Eva no meio do paraíso, justamente para que eles desfrutassem das maravilhas que Ele criou. Da mesma forma que os homens estão fazendo atualmente, o Adão foi logo desrespeitando a lei que Deus havia imposto e induzindo a Eva a comer do fruto proibido. Acredito que, na verdade, o fruto proibido é a nossa natureza e, nós também estamos acabando com ela".
- Logo após a catequese do guia, iniciou-se um grande bate-boca entre os três: "Sai dessa Francisco, esse negócio de Adão e Eva é conversa pra boi dormir... Nada disso aconteceu". Rebateu o Tonico. E, na seqüência, o Renzo olhando para o guia, veio com outros argumentos: “Eu concordo! Essa história de Adão e Eva foi antes da ciência provar que o homem veio do macaco, ou melhor, do primata. A evolução das espécies nada tem a ver com religião, mas na onda do desenvolvimento, certamente o homem está destruindo tudo, sem se preocupar com a própria sobrevivência. Um dia esse planeta vai virar um grande deserto, pior do que a lua”.

E, em defesa da sua convicção, o Francisco já partiu para os finalmentes: “O que? Vocês são uns ateus, nem acreditam que somos filhos de Deus. No dia do Juízo Final vocês vão pagar pelas suas blasfêmias. E, vocês podem ter certeza disso, eu vou ta lá pra ver vocês indo para o caldeirão de óleo fervente...”. Etc, etc. Antes que aquela conversa terminasse em briga, fui logo encerrando aquele assunto: "Opa! Opa! Discussão sobre futebol, política e religião não chega a lugar nenhum. Vamos logo parar com essa conversa! O livre arbítrio dá a cada um o direito de pensar como quiser, concordam? Toca o carro Tonico, as geladinhas nos esperam em Alto Paraíso”.    

Calados, nós voltamos para mais uma noite na pensão ao lado do posto (é claro que nada dormimos, o barulho dos caminhões estava horrível).
Foi uma viagem interessante, mas com tristes informações.

Eddie Esteves Pereira


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