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Mula-sem-cabeça no sertão de Minas Gerais
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A Mula-sem-cabeça é mulé de padre que foi amardiçuada |
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Já era noite quando paramos em Serra das Araras para uma rápida refeição. Na janela do bar, mulheres espremiam-se, entre o vão, para ouvirem os homens com seus causos sobre Mulas-sem-cabeças: “Na corésma, o compadre Janico ouviu o tropel da mulona na subida da serra do xique-xique”. Outro, interrompendo, afirmou: “Oia, sô, ano passado eu táva na incruziada da lagoa, antonce, eu vi a mardita”. |
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Quinta-feira Santa de 1981. Havia chovido torrencialmente durante aquele dia e as estradas enlameadas estavam perigosas.
Eu e o baiano Possidônio, conhecido pelo apelido de Dona, meu empregado e companheiro de viagem, chegamos cansados em Serra das Araras, e mesmo assim, decididos a continuar a viagem para dormir em Januária, nas barrancas do velho Chico.
Na parada para um pequeno lanche, encontramos o povoado em alvoroço. Naquela Semana Santa toda população da redondeza estava no arraial. Crianças brincavam, gritando e correndo em volta de pequenas fogueiras. Como não havia energia elétrica, o único bar do local chamava a atenção pela forte claridade dos lampiões a gás. Na frente e nas proximidades do bar, o vai e vem de moças e rapazes namorando, dava um toque de romantismos ao escuro da noite. Dentro do bar, num burburinho de vozes e risos, grupos de pessoas se destacavam: mais ao fundo meia dúzia de homens jogava sinuca, outros mais perto da janela, contavam causos sobre Mula-sem-cabeça, Lobisomem e outros bichos próprios da Semana Santa. Alguns juravam que ano passado, a Mula-sem-cabeça havia passado justamente por Serra das Araras. Outros mais corajosos diziam terem visto a amaldiçoada e a descreviam como sendo de estatura baixa com ancas gordas e tendo na testa, uma cruz ferrada nos cabelos brancos: “A mardita com zóios de fogo, veio tinindo os cascos ferrados, tirando faíscas nas pedras, pulando e soprando fogo pelas ventas. A bicha passou desembestada, sortano fogo pela venta, peidano e cagano enxofre pela estrada”. Explicava o seu Zé. Outro informou também que, ano passado, a Mulona havia matado quatro cachorros lá perto do cruzeiro. “A sua sina é de corrê até o dia raiá, antonce a Mula procura gente promode chupá os zóios, pra dispois a amardiçuada matá os coitados cum patada”. Contou o velho que tomava pinga na ponta do balcão. De imediato o Dona se interessou pelo papo e, aproximando-se do grupo, passou a dividir com eles relatos do sobrenatural. E foi logo se apresentando. “Hômi, sou baiano de Cocos, onde nasci e me criei. Oxente, a Mula-sem-cabeça é uma mulé de padre que foi iscomungada pelo Divino. Nas noites da quinta para sexta feira da corésma, numa incruziada, a mulé de padre vira uma besta e seu castigo é correr sete freguesias (sete cidades), antes do galo cantá trêis vêis. Mula-sem-cabeça é só apilido, sô! Ela é um monstrengo medôin, com cabeça e tudo mais, forte pra daná, com patas e freios de ferro, rabo pareceno labareda e sopra fogo pelas ventas e pela boca. Se a mardita vê unha ou dente de quarqué vivente, ela mata o pobre a coices e mordidas. A burrona de zóios de fogo mata até cachorro que atravessá o seu rumo”. Enquanto bebericava uma cervejinha o baiano seguia empolgado com a explicação: “No raiá do dia o feitiço acaba e a mulé, discorada, machucada e toda lanhada dos ispinhus dos mandacarú, acorda peladona na Caatinga. Adispois a mundana vorta pra casa toda machucada, e num lembra nadica de nada do asucedido”. |
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Mula-sem-cabeça na Caatinga |
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Na medida que o baiano ia narrando, as mulheres que ouviam pela janeja se aproximavam, atentas aos causos do desconhecido: “Oxente, minha mãe contava pra nóis que numa noite de quinta-feira santa, ela topô com a Mula-sem-cabeça na istrada pra Lagoa seca, antiga fazenda do vô Serafim. Maínha tava indo rezá o terço no rancho da prima Cabocla, que morava lá prás bandas do riacho. Era mais de nove da noite e o Chuvisco, o cachorro de mãe, ia à frente, latindo e correndo, pirsiguino curiango”.
- Falando alto, o Dona chamava a atenção de todos os presentes. “- Aí, de repente, o tiu parou de latir e todo inchuriçado, veio se amoitá intremeio as pernas de Mãe. Quando ela viu o medo do tiu, a coitada ficou gelada, já prisintino assombração. Maínha começou a correr sem rumo no intremeio da macega cheia de xique-xique e cansanção, e foi aí que lembrô que o vô sempre dizia que, em caso de perigo, trepasse numa árvore. Antonce, num piscá de zóio, maínha trepô na primeira árvore que achô e ficou iscundida lá nas grimpas”. Olhando para a platéia que o circundava, com expressão e gesto de suspense, Dona continuou: “Um silêncio amardiçuado caiu na capoeira, nem perereca e nem grilo cantava. De repente mãe ouviu um galope disatinado, que vinha diretinho pra sua banda, parecia um animar sortano um relincho comprido. De cima da árvore, maínha raiava com o Chuvisco que chiava debaixo duma moita. Cala a boca aí, tiu... Antonce do meio da escuridão, surgiu uma mulona fogosa com crina cumprida, rinchado e babano sangue, bateno ferradura e sortano fogo pra todo lado. A aparição, fedeno enxofre, já ia passando correndo, mas num é de vê que a mardita viu o briio da unha e dente de mãe! Parô e rodopiô nos cascos procurando os briio. Num piscá de zóio, a mulona sartô na direção de mãe, dando coices e mais coices na árvore, tentano derribar a coitada. Foi um fusuê do inferno. Com aquela pantomia dos infernos, o Chuvisco veio lá do fundo do mato, latindo, latindo e rodopiando em vorta da disgraçada da Mula, promode defendê a dona”.
Enquanto o baiano ia crescendo na sua narração, o ambiente do bar se emudecia. As mulheres aterrorizadas, fungando no pescoço uma das outras, ouviam o causo sem piscar os olhos. Até os meninos já se acotovelavam no balcão, ouvindo o baiano.
“Oxente! Foi um arranca rabo dos diabos. O Chuvisco enfrentava a Mula, latindo sem parar e a maínha, quase caindo da árvore, chorava de medo, tremeno iguar vara verde. Promode o ataque do Chuvisco, a amardiçoada se esqueceu de Mãe e, sortano fogo pelas ventas, saiu em disparada pro intrimêio da macega, tentando matá o bendito cachorro”. |
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No momento daquele suspense, chamei o Dona pra comer uns salgadinhos. Meio sem querer, o baiano veio e, sentando-se por perto, disse: “Sêu Ed, hoje acho mió nois drumi puraqui. Oxente, tô cum medo arretado de viajá nessa noite iscura. Oia sô, arrepiei tudin só em pensá no diacho da Mula-sem-cabeça”. Ouvindo nossa conversa, o proprietário do bar gentilmente nos ofereceu pouso em sua residência. “Tenho um quarto vago, se desejarem vocês podem dormir em minha casa”. Como já eram quase 22 horas e, por medida de segurança, até eu preferi dormir em Serra das Araras. Agradeci a aceitei a oferta do Sêu Antônio, mas antes de sairmos do bar, o Dona teve ainda que satisfazer a curiosidade da platéia: contou o restante do causo, informando que sua mãe ficou em cima da árvore até o sol sair. E que dois dias depois, até o Chuvisco apareceu.
Sexta-feira da quaresma.
De manhã, no rápido café, acompanhado com biscoitos de goma, oferecido pelo Sêu Antônio, perguntei a ele se alguém, no arraial, havia topado com a Mula-sem-cabeça na noite passada. Rindo, ele respondeu que ainda não havia sido informado da nada, mas com certeza, outros novos causos seriam contados até o Domingo da Páscoa. Dirigindo-se ao baiano Dona, Sêu Antônio perguntou se ele acreditava mesmo na mulona. A resposta veio no quente: “Oia sêu Antoin, eu num sô hômi de falá mintirinha. Só falo a verdade, verdadêra, sô”. Entre risos e tapinhas nas costas, nos despedimos. O sol já estava alto quando saímos pelo areão na direção de Januária, em busca dos cactos e bromélias, nossos principais objetivos.
Naquela manhã, percorremos a vasta região arenosa até o Rio Pandeiros, onde permanecemos pesquisando os cactos e bromeliáceas até perto das 16 horas. Ao chegarmos em Januária, fomos barrados por uma grande procissão do Senhor Morto que cortava a cidade de oeste para leste, em direção ao centro. Estacionado numa esquina, ficamos observando de dentro do carro, aguardando uma oportunidade para cruzar a rua. Numa impressionante manifestação religiosa, centenas de fiéis trajando vermelho, simbolizando a Paixão e Morte de Cristo, seguiam o cortejo puxado por quatro andores cobertos por tecido roxo e negro. Logo atrás dos andores, o som repetitivo de matracas (Plect, plect, ploct, ploct, plect...) ditava o ritmo da marcha. Mulheres cobertas por longas túnicas brancas, seguiam em silêncio. Na retaguarda da procissão, os fiéis entoavam cânticos fúnebres, que mais pareciam um lamurio. Uma lembrança impressionante.
Logo que o cortejo passou, seguimos e nos hospedamos num hotel localizado na praça, às margens do Rio São Francisco. Logo descobrimos que aquele não havia sido o melhor dia para visitarmos Januária. Nada estava funcionando. Todos os bares e restaurantes estavam fechados e a cidade estava praticamente parada. Naquela noite, com muita sorte, a proprietária do hotel providenciou comida para nós: Surubim ensopado com arroz, farinha e tomate picado. Requentados, certamente!
Detalhe: Fumante inveterado, naquela noite o baiano ficou em dificuldade, pois eu o proibi de fumar dentro do quarto. Durante o café da manhã ele me disse que a cada uma das suas fugidas, pra fumar, se lembrava da Mula-sem-cabeça. Ficava na porta do hotel, olhando de meia-cara para cima e para baixo, observando a fria rua deserta... De repente, um arrepio corria sua coluna, de cima até em baixo. Encostando-se à porta, ele jogava fora o cigarro fedorento e, correndo, voltava para a segurança da cama. |
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Pilosocereus occultiflorus P. J. Braun & Esteves |
Facheiroa pilosa F. Ritter |
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Pilosocereus densiareolatus F. Ritter |
Pilosocereus densiareolatus F. Ritter |
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Melocactus diersianus Buining & Brederoo |
Pilosocereus E-125 |
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Quiabentia zehntneri (Britton & Rose) Britton & Rose |
Cereus calcirupicola (F. Ritter) Rizzini |
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Naquela Semana Santa, pesquisarmos as serras da vizinhança e documentamos várias fantásticas plantas: Cereus calcirupicola (F. Ritter) Rizzini, Facheiroa pilosa F. Ritter, Melocactus diersianus Buining & Brederoo, Pilosocereus densiareolatus F. Ritter, Pilosocereus occultiflorus P. J. Braun & Esteves, Pilosocereus gounellei (F. A. C. Weber) Byles & Rowley, Quiabentia zehntneri (Britton & Rose) Britton & Rose, Euphorbia phosphorea Mart., e várias bromeliáceas.
No domingo de Páscoa, retornamos à Goiânia.
Eddie Esteves Pereira |
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