Brasil, 24 de julho de 2017  
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De Posse a Barreiras  

Em abril de 1990, mais uma vez, viajamos ao oeste da Bahia. Nossa intenção foi rever os cactos, bromélias e a natureza restante no grande chapadão baiano, que inicia na Serra Geral de Goiás e vai até a região de Barreiras. Também aproveitamos para visitar Serra da Bandeira onde um Aeroporto Internacional foi construído na época da Segunda Guerra Mundial.

Havia chovido bastante no dia anterior e a BR-020 estava quase intransitável. A lama escorregadia obrigava o meu filho Richard a dirigir com grande cautela. Após percorrermos cerca de 550 km, pernoitamos na cidade de Posse. No dia seguinte saímos em busca de um grande afloramento de rochas calcárias, onde crescia a maior colônia de Siccobaccatus estevesii que se tinha notícia. Contratamos na região, o Geraldo, um jovem conhecido por , que conhecia o local e nos ajudaria com o transporte do material. No caminho fotografamos importantes espécies descobertas anteriormente, como Pilosocereus goianus P. J. Braun & Esteves, e Pilosocereus parvus (Diers & Esteves) P. J. Braun. Pudemos constatar que nas encostas da Serra Geral de Goiás a natureza estava, ainda, bastante preservada, entretanto nas partes planas o cerrado já haviam sido quase totalmente desmatado para o plantio de soja. E, justamente no Cerrado plano e arenoso, cresciam os Discocactus catingicola ssp rapirhizus. Foi bastante difícil encontrar alguns remanescentes da espécie para fotografar. 

 

Pilosocereus parvus e Aechmea sp

Pilosocereus goianus no habitat

Discocactus catingicola ssp. rapirhizus

O guia, que já sofria com os problemas da destruição da natureza, ia pelas trilhas se queixando da derrubada da vegetação. “Aqui na região a gente sempre encontrava alguma caça para comer, agora que o mato acabou, nem rato aparece. O maior problema é que agora todo mundo está sem serviço, pois os gaúchos trazem máquinas, para plantar e colher, e não necessitam do povo daqui para trabalhar. É fome só! O meu destino será mudar para Posse e tentar encontrar algum emprego”. De repente, por entremeio as árvores retorcidas do cerrado, pudemos vislumbrar a grande colônia de Siccobaccatus, crescendo espremidos uns aos outros, sobre um pequeno afloramento rochoso.

Eddie Esteves no habitats do Siccobaccatus estevesii


Enquanto estávamos fotografando os Siccobaccatus, um irmão do chegou dando a notícia de que o pai havia sido ofendido por cascavel. Ao ser informado da tragédia, nosso guia desceu das pedras e, sem se despedir, saiu correndo para socorrer o pai. Atordoados pelo acontecimento, nós também resolvemos prestar ajuda. Guardamos o equipamento, tocamos o carro e logo alcançamos os irmãos que corriam pela trilha. O Richard chamou-os: “Entrem no carro, vamos levar o pai de vocês ao hospital”. Puxando conversa, o Richard perguntou ao mais novo: "Como aconteceu isso?". “Pai tava carpindo o mandiocal e, sem vê, pisou na iscumungada”, informou o garoto. Rodamos uns três quilômetros pela trilha e encontramos, em frente de um rancho de sapé, o “Seu” Antônio, espichado no chão, rodeado pela mulher e pelos filhos menores que choravam sem saber que destino tomar. - A simplicidade daquela gente era impressionante: A cobra havia picado o velho no tornozelo e, como primeiro socorro, haviam passado querosene na área afetada e, sobre o local da mordida, amarraram um pedaço de pano, que diziam ter sido “bento” por um “espantador de cobras”. O velho, já com as pupilas dilatadas, suava por todo o corpo. Rapidamente, com a ajuda do , levamos “Seu” Antônio ao hospital de Posse, onde ele foi medicado. Tudo bem! Com aquele imprevisto, resolvemos seguir viagem, com destino à Roda Velha. Nos despedimos do “Ge” e lá pelas 13 horas já estávamos na Bahia, viajando pela estrada asfaltada da grande chapada, rumo a Barreiras. Enquanto o Richard dirigia pela estrada reta, eu lhe contava a anedota do engenheiro “almofadinha” que trabalhava com peões goianos na frente de obras, na abertura da rodovia Belém-Brasília.

 À tardinha, sentados após o jantar, o engenheiro perguntou aos homens, o que fariam se alguém fosse ofendido por cobra?  - Sem pestanejar o mais saído respondeu: “Se cobra mordê arguém aqui, dipressinha nóis procura, em vorta das barracas, um pedaço de bosta de cachorro, daquela bem branquinha, bem seca, fais um chá grosso e dá pru infeliz. Não sara de tudo, mais segura o veneno até chegá no hospital”. O engenheiro caiu matando: “Deixem de ser ignorantes!
Essa é demais! Onde já se viu falar que bosta de cachorro é antídoto contra veneno de cobra? Vocês têm é que aplicar, na hora, um soro antiofídico no infeliz e, em seguida,  levá-lo ao hospital. Puta que pariu! Êta goianada burra. Me cansei. Fui!”.

Aquela ofensa do “almofadinha” não foi engolida pela turma: Enquanto o engenheiro tirava uma soneca, balançando-se numa rede, um peão saiu pelo mato, pegou uma cobra coral e amarrou-a na ponta de uma linha de anzol. Depois de combinar com o grupo, colocou a cobra abaixo da rede, pegou uma varinha bem longa com a ponta afinada e, através da rede, cutucou a bunda do engenheiro. “Oi, oi, ai, o que foi isso meu Deus...".

Levantando a cabeça, ainda meio sonolento, o engenheiro viu uma cobrinha correndo (arrastada) por baixo da sua rede e desaparecendo no mato. Foi um berro danado! “Socorro, gente! Pelo amor de Deus, me acudam... Socorro, ai, ai. Uma cobra mordeu aqui na minha bunda. Socorro”. Aproximando-se rápido os peões, com caras de surpresa, perguntaram: “O que aconteceu seu dotô?”. Desesperado e com os olhos esbugalhados, o “almofadinha” suplicava: “Amigos, por favor me ajudem, procurem rápido, por ai, aquelas bostinhas de cachorro, bem secas, pra eu ir roendo, enquanto vocês fazem o chá contra picada de cobra. - Um chá bem grosso, ta?”.
Silêncio geral.

- Entre uma e outra prosa, eu ia matutando, observando a paisagem que corria pela janela. Plantações de soja, arroz e milho podiam ser vistas até o horizonte. Repassando limpas e claras lembranças de outrora, descrevi ao Richard fatos ocorridos ali, nos anos 70:

 

A grande chapada no oeste da Bahia


- Eu me considero privilegiado por ter conhecido a maravilhosa e rica natureza que existia aqui nessa chapada. É difícil de acreditar em tanta desolação. A destruição foi muito rápida. Veja que quase toda a vegetação natural já foi arrancada e destruída para se plantar grãos. Observe que quase não vemos pássaros e nem insetos. Os inseticidas que os agricultores jogam nas lavouras matam todos animais que perambulam por essas terras e, ainda por cima, poluem os rios. Aqui era tudo muito bonito. A natureza impressionava pela diversidade. A vegetação de campo, baixa, ligeiramente rala escondia uma rica fauna e flora. 
- Richard, você precisava ver o tamanho das Mangabas que tinham aqui. E as Gabirobas rasteiras? Doces e saborosas... A gente comia sem parar. O chão ficava forrado das frutinhas amarelas e por todo os lados, rastros de animais indicavam que eles comiam de moita em moita. Os bandos de Maritacas, que comiam as frutas do campo, enchiam o ambiente com suas cantigas. Tinha bicho pra todos os gostos, mas gente mesmo, quase não se via. Só de vez em quando, cortando o areal, passava um pau-de-arara, cheio de candangos, indo pra Brasília.
- Lembro-me que em 1977, eu e o Pedro íamos para Barreiras quando a Rural atolou nesse areal. “Quem foi esse Pedro?”, perguntou o Richard. “Você ainda era pequeno e não o conheceu, ele trabalhou na chácara, uns anos atrás”, expliquei. Acho que estávamos mais ou menos a uns 50 km depois de Posse e não havia estrada, eram trilhas que seguiam em frente. Descemos do carro, estava “plantado” na areia.
“E agora Pedro, atolou até no eixo?”, perguntei. “Seu Ed, não atolou não. Não é de vê que a Rural caiu justo num buraco de tatu canastra”, informou. - O buraco, ao lado de um grande murundu de terra removida, tinha cerca de 80 centímetros de diâmetro e, no seu centro, a roda traseira do carro afundava na areia. Sentado ao lado do buraco eu duvidava: “Será mesmo que é um buraco feito por tatu canastra?”. Balançando a cabeça em sinal de afirmação, o Pedro espichado ao lado do carro, cavava a areia por baixo do carro tentando liberar a roda. Distraídos com o trabalho, nós assustamos com uns fungados por perto. Olhando para os lados, vimos chegando, já próximos, um casal de grandes Tamanduás Bandeira que vinham fuçando e quebrando os cupinzeiros em busca de formigas.

Tamanduá Bandeira (Myrmecophaga tridactyla)

Balançando os corpos, os bichos vinham de cabeças baixas em nossa direção. Ficamos quietos quase sem respirar, enquanto, sem nos perceber, eles já passavam ao nosso lado. Em certo momento o maior parou e, levantando o longo focinho, deu uns fungados no ar, como se estivesse pressentindo nosso cheiro. Dito e feito! Eles nos viram, cochichou o Pedro...
Ficamos quietos e eles, parados, nos observavam cara a cara. Foram uns 15 segundos de silêncio. Quando lentamente já se distanciavam, o Pedro rapidamente se levantou e, por brincadeira, correu e puxou o maior pelo rabo. Foi um fuzuê danado! Os bichos, fungando, rodopiaram sobre as patas e, num piscar de olhos, o maior levantou-se ágil sobre as pernas traseiras e, de pé, ficou fungando nos esperando de braços abertos. Correndo para o carro, gritei: “Pedro saia de perto, se esse bicho te abraçar vai te matar com as unhas”. Por sorte a vegetação era rala e baixa e o Tamanduá não teve em que apoiar as unhas para um ataque. Se ali tivesse algumas arvorezinhas para apoio, com certeza ele teria cortado o Pedro.
Recuamos e ficamos protegidos por detrás do carro, olhando e fotografando de longe, enquanto os animais se acalmavam e seguiam seus caminhos.

A primeira viagem que fiz à Bahia, pela BR 020, foi em julho de 1975 e, naquela época, nem havia estrada, só haviam trilhas pela areia solta. Era muito perigoso viajar sozinho por aqui. Depois que a gente saía de Posse, o único apoio que tínhamos, antes de chegar a Barreiras, era Roda Velha. Três ou quatro casas construídas as margens de uma represa no Rio Roda Velha. Havia uma casa maior aonde vendiam bebidas e serviam refeições e, de vez em quando, vendiam gasolina. Acredito que também lá era uma pensão. Nas proximidades da represa, o botânico Albert Buining e o Leopoldo Horst descobriram, em agosto de 1972, uma colônia de lindos DiscocactusColetada inicialmente em Sítio Grande, perto de Barreiras, em 1974 a espécie foi descrita como Discocactus catingicola Buining & Brederoo. 

Por diversas vezes, viajando com destino a Barreiras, Roda Velha era uma parada certa, pois teríamos a oportunidade de rever os lindos Discocactus crescendo na areia avermelhada, entre as árvores retorcidas do Cerrado. A gente acampava, mais ou menos, na base da serra e, virou costume tomarmos banho abaixo do sangradouro da represa. À noite, atraídos por nossa iluminação, uma infinidade de insetos nos aborrecia e tão logo parávamos as atividades, nossas panelas eram atacadas por roedores noturnos, principalmente por uma mansa espécie de marsupial de cauda longa e preênsil, conhecida na região por Cuíca. Enquanto contava causos sobre Roda Velha e região, coincidiu chegarmos ao local, já bastante diferente daquele local de 1977, agora com posto de gasolina e outras benfeitorias. Entretanto me pareceu que a represa ainda estava intacta. Paramos e nos refrescamos na água fria que descia caudalosa da represa e depois preparamos nosso lanche: Pão com maionese, presunto e umas cervejinhas.

Esteves e o Discocactus catingicola Buining & Brederoo.

À noitinha chegamos em Barreiras, onde pernoitamos.
De manhã o Richard comprou, na feira que funcionava junto ao mercado, várias iguarias encomendadas pela minha mãe, Dona Anália Rosa Pereira. Baiana, natural da cidade de Santana, antiga Santana dos Brejos, próximo à Santa Maria da Vitória. Nos anos 20, ainda aos 11 anos, ela foi levada pelos pais pra Goiás, numa difícil viagem sobre lombos de burros. Vivia sonhando com as comidas e iguarias da sua terra natal, e assim, logo que soube que íamos viajar para a Bahia, Dona Anália logo encomendou ao neto uma manta salgada da cheirosa carne-de-sol de boi curraleiro (Pé duro), e tudo mais que fosse gostoso da Bahia: Paçoca de carne de bode socada no pilão; polpa de coco buriti em caixa para se fazer doces e sorvetes; moça branca batida, farinha de puba; óleo de coco em garrafa (de Coco Catolé) e Umbu. Richard comprou quase tudo da lista, menos o Umbu, justo por não ser época da fruta.
No meio da feira, circulando por entre barracas e sacos de mantimentos, ouvimos a prosa de um baiano sobre o sertanejo Severino e sua mulher:

 “Oxente hômi, rompeno o dia, depois da mangada (de chuva), o compade Severino chegô na fêra de Angical, com a Fulô, e amarrô o jegue no Pau”.
(Em frente à Igreja haviam estacas fincadas onde os sertanejos, ao chegarem, amarravam seus animais, enquanto faziam a feira).
Antonce, te falando, enquanto o Severino foi labutá na fêra a Fulô foi rezá e, sumiu”. Compra aqui, pechincha ali, e quando a bruaca já tava lotada, o Severino procurou pela mulher, mas não encontrou a dita cuja. 

”Oxente, o hômi ficô mais aperreado que cachorro de mudança e saiu chamano pela mulé”. “Fulôoo, vamo simbora, meu amô. Ôxa! Cadê ocê meu amô? Compade Laudelino viu a Fulô? Não? Diacho! viu minha Fulô, Dona Genilda? Não? Que diacho assucedeu com a minha Fulô, gente? - Eu tava na fêra e a Fulôzinha, coitadinha, foi pra igreja rezá pra chuvê. Ô Padim Ciço!, cadê minha Fulôôô?”, choramingava o Severino, feira adentro.

- Procura aqui, procura ali, e depois de muito vasculhar, Dona Zefa, uma velha baiana veio dar a notícia: “Ô, hômi, asossegue, vi tua mulé saindo lá da casa do padre. Agora ela ta lá, sentada no pau de jegue, descabelada, se abanano!”. “Arre égua, bendito seja Padin Ciço... Antonce é isso! Ela num sumiu, táva me isperano, sentada no pau de amarrar jegue, ? Oxente! E eu aqui, fazeno mau juízo da coitadinha... Ôh, Dona Zefa... viu Fulô se abanano, mas foi de calô, tá sabeno? Baiana linguaruda dos infernos!”.

Depois da feira e do Severino com sua Fulô, tocamos direto para a Serra da Bandeira, onde fica o Aeroporto Internacional de Barreiras.

História

Aeroporto de Barreiras, uma estratégia de guerra.

Aeroporto Internacional de Barreiras, em 1943

Mesmo depois que Adolf Hitler assombrou o mundo, em setembro de 1939, invadindo a Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bélgica e outros países da Europa e norte da África, na sua obsessão em dominar o mundo, o Brasil ainda vacilava em manter-se neutro ou entrar na guerra.

Após vários contatos entre o presidente americano, Franklin Dellano Roosevelt e o presidente brasileiro Getúlio Vargas, o Brasil obteve financiamento americano para construir a Usina Siderúrgica de Volta Redonda no estado do Rio de Janeiro, para a produção de aço destinado aos aliados. Diversas ações diplomáticas, mesmo ainda sem ter declarado guerra à Alemanha, levaram o governo brasileiro a autorizar a construção, pelos americanos, dos aeroportos de Natal, no Rio Grande do Norte e de Barreira no oeste da Bahia, como estratégias de guerra na patrulha do Atlântico Sul e de defesa das Américas na Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1942, Getúlio Vargas, a pedido do presidente americano, visitou as obras do aeroporto na Serra da Bandeira (Getúlio ficou apenas uma hora em Barreiras). Em 1943 as grandes fortalezas voadoras americanas, vindas diretamente dos Estados Unidos, além de aeronaves da F.A.B., da Panair e Cruzeiro do Sul, já utilizavam as oito pistas de terra compactada do Aeroporto Internacional de Barreiras.

Fortalezas voadoras americanas em Barreiras

Aeronave de carreira em Barreiras - 1943

 

Na volta a Goiás, fomos visitando os diversos habitats já conhecidos e procurando por outras novidades. Fotografamos o Discocactus catingicola (spinosior), Bromelia lindevaldae, Leocereus bahiensis ssp barreirensis, Melocactus saxicola e uma dezena de outras novidades em cactos e bromélias.
Ainda naquele dia, descemos a Serra Geral de Goiás e pernoitamos em Posse.

 

Foram boas e más lembranças...

 

Eddie Esteves Pereira
  Co-participação: Alex Braga


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