Brasil, 26 de novembro de 2014  
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Caverna de Terra Ronca, o Cerrado e os Cactos

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Caverna de Terra Ronca, o Cerrado e os Cactos  

Em abril de 1993, eu e meu filho Richard, viajamos ao nordeste goiano para visitar o Parque Estadual Terra Ronca localizado numa região aonde o Cerrado ainda estava, mais ou menos, preservado e, mais uma vez, rever a fabulosa Caverna de Terra Ronca.

Viajamos o dia todo para pernoitarmos em São Domingos.

De manhã, depois de um rápido passeio pela cidade, fomos diretos ao Parque Estadual Terra Ronca, no município de São Domingos, localizado nas fraldas da Serra Geral de Goiás, maciço que separa o estado de Goiás da Bahia.

Ao longo da estrada, intermitentes serras de rocha calcária do grupo Bambuí nos prendiam à atenção. Como se fossem amontoados de blocos rochosos, nas cores cinza a cinza-chumbo, que por milhões de anos tiveram suas superfícies recortadas e carcomidas pela ação do vento e da água, as serras se mostravam intrigantes e imponentes.
No cume, silhuetas dos grandes Cereus Pierre-braunianus enfeitavam o horizonte, dividindo espaço com outras importantes espécies da flora goiana, como o Pilosocereus diersianus, Siccobaccatus estevesii, Euphorbia estevesii e Encholirium eddie-estevesii.

Serras do Parque Estadual Terra Ronca, em destaque o Cereus pierre-braunianus

Siccobaccatus estevesii

Pilosocereus diersianus

Euphorbia estevesii

Encholirium eddie-estevesii

 

Parque Estadual Terra Ronca

 

O Parque Estadual Terra Ronca, criado em 7 de julho de 1989, tem área de 57.018 hectares e limites, estabelecidos em agosto de 1996. É destinado a proteger os rios e cachoeiras, bem como a fauna, flora e a paisagem natural da região e, para proteger, principalmente o patrimônio espeleológico do mais expressivo conjunto de cavernas América Latina, sendo que, as mais famosas são Terra Ronca, Angélica, São Bernardo, e São Mateus. 

Formada por cerrado, cerradão, matas de galeria e veredas, a vegetação do Parque, se torna excelente habitat para uma enormidade de espécies da fauna.
Cerca de 50 espécies de mamíferos já foram registradas, mais de 150 espécies de aves, entre elas, os vários Psitacídeos que nidificam nos buracos das pedras, chamam a atenção com seus cantos estridentes: Arara vermelha (Ara Macau), Arara Canindé (Ara ararauna), Papagaio verdadeiro (Amazona aestiva), Curica (Pionus menstruus), Tiriba (Pyrrhura leucotis pfrimeri), Jandaia (Aratinga solstitialis jandaia) e Aratinga solstitialis auricapilla.

Angélica

Antes de chegarmos a Caverna de Terra Ronca, resolvemos conhecer primeiro a magnífica Caverna Angélica, localizada em local de fácil acesso. Na estrada principal havia uma pequena placa, com uma seta que indicava: Angélica. Seguimos por uma estradinha sinuosa, cortando um Cerrado sujo, que nos levou até uma velha sede de fazenda. Logo na chegada, um morador por nome de Tadeu (um dos antigos donos das fazendas que hoje formam a área do Parque), se colocou à nossa disposição, como guia.
A Angélica é uma das mais belas cavernas do Parque Estadual Terra Ronca, localizada distante da estrada principal e, por isso, menos conhecida. Ela guarda ainda, quase intocada, sua magnífica formação geológica. Na entrada existe uma praia e logo depois, o rio que lhe empresta o nome, desaparece no seu subterrâneo, ressurgindo aqui e ali no interior de alguns salões, nas profundezas da escuridão.

Entre suas principais atrações, o salão dos canudos, o salão dos espelhos e o belíssimo salão das cortinas são muito visitados. Seus extensos e frios salões, não muito altos e pouco iluminado, ainda permanecem ricamente decorados pelas estactites e estalagmites, mas não livres das irreparáveis depredações. No final da Angélica, percorridos mais de 14.00 metros de sua extensão, existe uma entrada para outra caverna, chamada Bezerra, onde poucos já estiveram. O “seu" Tadeu, nos informou que existiam mais outros salões, muito interessantes, entretanto ainda não estavam liberados à visitação.

Detalhes da Angélica

- Muito proseador, o Tadeu não se cansava de nos contar histórias da região. Entre os causos que ele ia narrando, o assunto sobre onça foi um tema interessante. "Antigamente a gente nem podia ter criação por aqui, as danadas comiam as vacas e os cavalos. - Oia sô (olha, senhor), as abusadas vinham até na beira do rancho pra pegá (pegar) leitão. Até de dia, , o leão (nome do cachorro) acuava as bichas lá perto da porteira".
Enquanto contava seus causos, o Tadeu seguia pela caverna descascando e chupando uma cana bem doce e macia. "Aqui mesmo na Angélica e por essas beradas (arredores), a gente achava muita onça pintada, entocada, até em furna pequena. Tinha também aquela onça marelada (amarelada), grande, que gostava de cumê (comer) galinha". Parando de repente, de frente para nós, o Tadeu elevou o tom de voz: "Agora, brabo mermo (mesmo) dotô (doutor), era quando um canguçu macho dava um esturro no meio das grotas. Até caçadô (caçador) mais veio (velho), calejado, hôme (homem) mesmo, tremia tudim (todinho), de baixo até em cima, só de ouvir". "No dia que pintada esturrava na serra, mulé (mulher) não deixava minino (menino) maliná (malinar) na porta do rancho". Contando os causos, o Tadeu gesticulava sem parar.
- Meio receoso e olhando para os lados, perscrutando as pedreiras, o Richard perguntou se onças atacavam as pessoas. "Oia (olha) seu dotô (senhor doutor), pois até cumê (comer) gente, onça come!” – Respondeu o Tadeu. “O compadre Pedro tava (estava) caçando zabelê perto da pinguela, meio distraído, seguindo o pio do passarinho... Pois não há de vê, (senhor), que uma pintada pulou no cangote dele e mordeu fundo no seu pescoço! A bicha estraçaiô (estraçalhou) tanto seu pescoço que, depois de dois dias, o pobre morreu. Naquele tempo, não havia modo de levá (levar) o coitado pra tratá (tratar) na cidade". Apontando para a direção da serra, o guia continuou: "Até hoje, lá prás (pelas) bandas do funil, têm pintadas morando naquelas buraqueiras todas". "O Ibama não gosta, mas de vez em quando a gente tem que matá (matar) uma onça, pois se dexá (deixar), credo, vira uma praga danada!".

Depois da Angélica e do Tadeu com seus causos de onças, seguimos deslumbrados com a natureza, até que enfim, depois de uma curva, a majestosa boca da Caverna de Terra Ronca pôde ser avistada.

Terra Ronca

O Rio da Lapa entrando na Caverna de Terra Ronca

 

A Caverna de Terra Ronca foi formada pela ação contínua das águas da chuva e das correntezas do Rio da Lapa que nasce nas fraldas da Serra Geral, sobre os paredões rochosos de calcário. O nome Terra Ronca, é derivado do ruído “rouco” provocado pelas águas do rio circulando nas profundezas da montanha. Seus salões monumentais, que chegam a dimensões impressionantes de 150.000 m², com abóbadas de até 100m de altura, surgiram a partir de atividades sísmicas há milhões de anos. Em era remota, Terra Ronca sofreu um desabamento principal que a dividiu em duas partes. 

Ao fundo, Serra Geral de Goiás

Detalhes da Caverna de Terra Ronca

O primeiro salão, onde está o altar, com aproximadamente 760 metros de extensão e 100 metros de altura, fica à margem da estrada que liga Posse a São Domingos, por isso, é o mais conhecido e visitado. O segundo, chamado Terra Ronca 2, ou Malhada, também com as mesmas proporções gigantescas, é de beleza impressionante. Possui duas clarabóias, uma delas chamada de “Buraco das Araras" e outra, um imenso ambiente chamado "Salão dos Namorados", ricamente ornamentadas por estalactites, estalagmites e outras formações. No seu interior, imensas dunas subterrâneas cortadas pelo rio. Atravessá-la, com a devida orientação de guia e equipados adequadamente, é uma aventura inesquecível. Na primeira semana de agosto, realiza-se a tradicional Festa de Bom Jesus da Lapa, que atrai milhares de romeiros vindos principalmente de Goiás e da Bahia. Os romeiros rezam, pagam suas promessas e depois, caem na gandaia: comem, bebem e se divertem nos grandes ranchos cobertos por folhas de palmeiras.

Richard na Caverna de Terra Ronca

Por horas, nós vagamos distraídos e pensativos pelos grandes e magníficos salões, procurando entender um pouco mais daquela impressionante obra da natureza. Com os pescoços cansados de tanto admirar as abóbadas, nós caminhamos mais ou menos um quilômetro caverna adentro, ora andando pelo leito caudaloso do rio, ora pelas passarelas naturais, até que a pouca iluminação nos obrigou a retornar. Já perto da entrada, uma vozearia nos chamou a atenção: era um grupo de aventureiros, rapazes e moças, que praticavam rappel na entrada da caverna. Reunidos no topo da serra eles enchiam o ambiente com seus risos e gritos, chamando a atenção de todos que por ali passavam. Ficamos impressionados com o sangue frio da moçada, que despencavam de uma altura superior a 150 metros, até molharem os pés nas águas frias do rio. Enquanto eles se divertiam dependurados em longas cordas, eu e o Richard fotografávamos as bromeliáceas que cresciam agarradas aos íngremes paredões calcário. No topo da serra, grupos de Cereus e Siccobaccatus se destacam pelas sua formas retilíneas.

No detalhe, jovem praticando rappel. 


Depois de um dia no Parque de Terra Ronca, pernoitamos em Posse.

Voltamos à Goiânia, mas nossos pensamentos ficaram impregnados com as imagens do Cerrado no nordeste goiano e, da natureza que lá ainda existe.

 

Eddie Esteves Pereira


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