Brasil, 10 de September de 2010  
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Cactos, bromélias e o misticismo no nordeste goiano  

Chapada dos Veadeiros, uma região mística, no topo de Goiás, numa época em que o Cerrado ainda permanecia exuberante. Nas altas montanhas, entre cactos e bromélias, ufologistas aguardavam pelos Discos voadores.

Uma noite no cume de Goiás

Na nossa rota pelo nordeste goiano, via Alto Paraíso, passamos pelas cidades de Teresina de Goiás com destino a Campos Belos. Naqueles dias de junho, com a temperatura agradável, viajamos em companhia dos amigos Renzo (nosso fotógrafo), e do Tonico. 

Nas margens da estrada,  bandos de garças brancas procuravam por alimentos nos tanques cheios com água da chuva. Aqui e ali, animais silvestres cruzavam as estradas, às vezes, desconfiados como o Lobo Guará e a Ema choca com seus filhotes, ou calmos como o Macaco prego e o Tucano de bico amarelo que, saltitando entre os galhos retorcidos das árvores do Cerrado, nos observavam curiosos.
A grande biodiversidade da região nos animava a cada momento: Ora uma flor hermafrodita de uma Velloziacea, de folhas prateadas, nos convidava a uma contemplação, ou a inflorescência encarnada de uma bromelia endêmica, aguçava o apetite de ágeis beija-flores azuis. 
À tardinha nós resolvemos acampar as margens de uma tranqüila vereda de Buritis.

- Foi uma parada para pernoite, na Chapada dos Veadeiros, ponto culminante do estado de Goiás, Serra Pouso Alto, 1.676 metros de altitude.
A
o estacionar a Rural um pouco fora da estrada, o pior aconteceu: o carro afundou-se na areia molhada e fofa. Já era noitinha e rapidamente iniciamos o trabalho para desatolar o carro. Foi um Deus-nos-acuda.
Quanto mais a gente tentava tirar o carro, mais ele se fincava na areia.

Lobo Guará

Bromelia sp

Com sorte, mesmo no escuro, conseguimos variados tipos de instrumentos, como grandes pedras, postes e varões que nos serviram como alavancas e escoras. - Somente no começo da madrugada conseguimos colocar o carro em local seco e seguro.
“Puta merda, até que enfim!” - Reclamava o Renzo, cansado e sujo de lama.
Depois de armar nossa barraca para aguardar o romper do dia, nos dirigimos a um pequeno poço de água cristalina, logo acima da ponte e, mesmo tiritando de frio, mergulhamos sem temor na água gelada e profunda. Após o banho voltamos ao acampamento para nos aquecer e comer alguma coisa que o Tonico havia preparado.
Naquele dia, os sanduíches foram caprichados e, é claro, tínhamos chocolate quente. Mas para não passar batido e, como registro para a posteridade, informo que, mesmo com todo aquele frio, a dupla Renzo e o Tonico beberam sozinhos “todas as geladas”. Tenho dito.

 

Alto Paraíso, parada dos extraterrestres

 

A chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás, é uma das mais belas regiões do Brasil. Conhecida como berço das águas, a sua formação rochosa é uma das mais antigas do planeta. Na cidade de Alto Paraíso estão instalados mais de 40 grupos místicos que a transforma na Capital Brasileira do Terceiro Milênio. Mantendo essa linha “mística”, na região existe uma grande centralização das diversas correntes esotéricas, místicas, espirituais, de práticas orientais, etc.
O mesmo paralelo 14, que atravessa a lendária cidade de Machu Pichu, no Peru, passa também sobre as montanhas de Alto Paraíso, originando fantásticas histórias sobre a região, como visitas dos discos voadores, contatos com seres extraterrestres, e ainda grande fonte de energia.

Nas noites estreladas, ufologistas e místicos vindos de vários continentes, terapeutas e amantes da natureza buscam a energia e o poder de cura dos cristais. Acampados no cume da Serra dos Cristais, ponto de grande convergência de energia, os visitantes vasculham os céus, na esperança de contatos com extraterrestres que, segundo eles, visitam a região. Na cidade de São Jorge, situada na entrada do Parque Nacional de Veadeiros, dá para sentir a energia nas meditações dos hippes e místicos que se oferecem como guias aos visitantes do parque.

Arte ilustrativa da presença de OVNI's
na Chapada dos Veadeiros


Dia seguinte: Já com o sol alto, acordamos com um zumbido contínuo, ensurdecedor, que enchia a paisagem: milhares de cigarras entoavam o melancólico canto matinal de acasalamento. Enquanto preparava nosso desjejum, o Renzo, olhando para o céu, lascou a advertência “A chuva ta chegando, as cigarras nunca erram!. Nessa época de acasalamento elas cantam de manhã e à tarde, anunciando as novas chuvas”.
- Já com as barrigas cheias, caminhamos pelos magníficos Varjões, Campinas e Campos rupestres da região, onde atualmente é o Parque Nacional dos Veadeiros.

Acampamento na Chapada dos Veadeiros

- O Parque, criado em 1961, pelo então presidente Juscelino Kubtscheck, com 635 mil hectares, só foi efetivado e demarcado décadas mais tarde. Nesse meio tempo, teve sua área invadida por fazendeiros e grileiros e, sua área foi drasticamente reduzida para 65 mil hectares. Ainda hoje, a sua área original não foi efetivamente recuperada. Na época, com freqüência algumas emas podiam ser vistas, entretanto, por mais que procurássemos não conseguimos ver os famosos veados campeiros, de rabo branco, que outrora, pela grande quantidade de animais na região, emprestaram o nome ao Parque. 

Detalhe da Chapada dos Veadeiros

Algumas maravilhas que fotografamos na Chapada dos Veadeiros:

Bromelia goyazensis

Dyckia braunii

Dyckia lindevaldae

Discocactus lindanus

Ameiva ameiva (Calango verde)

Cattleya nobilior

Pilosocereus lindadus

Bromelia minima

 

De volta à estrada, seguimos em direção ao vale do Rio Paranã. 
Na medida em que descíamos da altitude da Chapada dos Veadeiros, a paisagem ia se modificando e o Cerrado ficava mais seco, quente e com a vegetação decídua, aparentando desolação. Mas aos nossos olhares, tudo era novidade e motivo para parar o carro e fotografar. E, é claro, um motivo a mais para algumas cervejas...
“Pare! Pare! Vi uma grande bromelia naquelas pedras”, disse o Renzo meio afobado. Logo na entrada do Cerrado enfrentamos trepadeiras espinhosas, que rasgavam nossas roupas; Bromélias surgiam a cada  clareira; Aqui e ali, grandes lagartos deslizavam por entre as folhas caídas. “-Tem uma Dyckia aqui; Tem uma Tillandsia prateada na árvore retorcida; Venham fotografar essa grande Bromelia”, nos dirigia o Tonico, em ziguezagues por entre as árvores, nos obrigando a dezenas de paradas para fotos. - E assim, de parada em parada, ao anoitecer chegamos a Teresina  de Goiás e nos hospedamos numa pequena Pensão.
O pipocar dos traques e busca-pés e o som animado de uma sanfona indicava que uma festa junina acontecia na praça.  A dona da pensão logo foi anunciando "- Os meus hóspedes estão convidados, podem ir conhecer nossa gente e nossos costumes". Olhando, para o Renzo, previu: "Acho que esse magrinho aqui ta doido pra subir no Pau-de-sebo". Vai lá pessoal, levem essas fichas pra pagar o que quiserem. É por nossa conta". E assim, logo após o banho, lá fomos nós em busca dos petiscos: Pipoca de sal e de doce, pé-de-moleque, mandioca assada na brasa, biscoito de fubá e de coco, quebrador, mané-pelado e tapioca, vinho de jabuticaba, sem esquecer o quentão temperado com Gengibre servido em caneca de alumínio (quente pra burro!). O forró corria solto quando o Tonico nos avisou que já passava da meia-noite e ele achava melhor a gente ir dormir. "Tudo bem, tudo bem, vamos dormir, outro dia volto só pra trepá no pau" – Se explicou o Renzo.

 

Novo dia.
Ao cruzarmos um pequeno riacho, topamos com alguns caçadores que retornavam da caça de espera. Traziam uma paca e um caititu mortos durante a noite. Carregavam os bichos com os pés atados e dependurados em um cambão. Os homens vinham conversando e, ao nos verem, se aproximaram devagar e desconfiados. Logo quebrando o gelo, nos aproximamos e cumprimentamos o grupo: “- Como vão indo?”. "A caçada foi boa companheiros?”, etc. Na seqüência, perguntamos se eles conheciam as cabeças-de-frade que cresciam sobre as pedreiras. “Aquelas morangas de espinhos, sabe... que crescem nas pedras?. No ano passado nós estivemos por aqui e fotografamos algumas bolas nas pedreiras baixas, dentro do Cerrado”. “Vocês sabem onde existem algumas bolas, bem bonitas?”, perguntou o Renzo, enquanto fotografava os caçadores.

Os homens, pessoas muito simples, já refrescavam os pés na água do ribeirão, quando nos informaram que viram muitas daquelas bolas de espinhos nas pedras. “Seu moço, é só trepá nos altos das pedras que ocê vai acha”, explicou, ao Renzo, um dos caçadores, enquanto enrolava seu pito de palha. “Eu nem gosto de ver aquelas danadas. Pois não é de vê que quase perdi esse pé, com um estrepe na junta?”, completou outro caçador, enquanto mostrava a profunda cicatriz da infecção, causada pelos espinhos dos cactos. "As morangas de espinhos servem pra comer?", perguntou outro caçador.

Discocactus cephaliaciculosus

Depois de um alegre bate-papo, no qual explicamos aos caçadores que os Discocactus deveriam ser protegidos, e de ter aprendido com eles os procedimentos básicos para um bom assado de paca, nós saímos em busca das bolas. Não rodamos mais do que uns 30 km e já avistamos os rochedos e na seqüência, os Discocactus cephaliaciculosus.

Enquanto eu fotografava Discocactus, Pilosocereus, Bromelia e Dyckia, os brincalhões, Renzo e Tonico subiam granito à cima, em busca de aventura.

Ainda naquele dia cruzamos a grande ponte do Rio Paranã. - E, por falar nisso, no vale desse rio cresce o Discocactus squamibaccatus Buining & Brederoo, uma importante espécie já quase extinta na natureza. - A água limpa do Paranã corria rápida, formando grandes redemoinhos e cachoeiras. De cima da ponte, nos imaginamos pescando os grandes Surubins... “Acorda gente, vamos em frente! Temos muito chão pra rodar”, disse o Renzo, o motorista da vez.

- Logo ao transpor a ponte nos deparamos com uma dezena de negros, que pediam caronas para a próxima cidade. Infelizmente nosso carro estava muito cheio, e em nada pudemos ajudar.

Rio Paranã

- Os negros em questão, são os Calungas, descendentes de escravos fugidos do trabalho cruel nas minas de ouro do nordeste goiano no século XVIII. Durante os últimos 250 anos, eles se isolaram nos fundos dos vales dos afluentes do rio Paranã, situados nas bordas do Parque Nacional dos Veadeiros, onde, até hoje, vivem excluídos da civilização.

Um avermelhado por do sol nos encontrou em Campos Belos, onde pernoitamos.
Logo de manhã, subimos as serras que juntas formam a Serra da Contenda, uma referência a batalhas e disputas pelo território no período da colonização. Estávamos em busca da Dyckia racemosa E-431, mas como a vegetação estava muito densa e alta, nada encontramos.

Em seguida, retornamos à Goiânia, com a certeza de que outras aventuras aconteceriam.


Eddie Esteves


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